SOMOS OBSOLETOS

Durante uma deliciosa conversa com minha amiga Mara, descobri sobre um exercício que fizeram na empresa dela. A questão era: daqui 100 anos, o que é que fazemos hoje que será considerado obsoleto. Foi uma boa reflexão, do tipo daquelas indutoras de crise, nas quais você se pega questionando uma série de coisas.

Normalmente essa pergunta nos faz pensar sobre ecologia, tecnologia, energia, vegetarianismo, etc. O óbvio ululante que todos já sabem, mas que poucos de fato adotam. Se os carros poluem, por que não vamos a pé ou de bicicleta? Se o consumo de carnes é prejudicial em todos os sentidos, por que não eliminamos os animais do cardápio? Estamos estagnados na almofada fofa da inércia, seguindo em movimento retilíneo uniforme, rumo ao abismo.

Mas num determinado ponto do nosso papo, a coisa ficou séria. Nosso principal constrangimento diante das gerações futuras será a forma como tratamos as mulheres.

Quer dizer que, naquela época, as mulheres não podiam usar as roupas que queriam sem serem constrangidas?

Sim. Pergunte para qualquer mulher. Qualquer uma! Melhor ainda, pergunte para qualquer representante do sexo feminino, já que constrangimentos assim são comuns com crianças. Todas elas sofreram algum tipo de episódio durante o qual se sentiram atacadas, invadidas, forçadas ou ofendidas. TODAS! Durma-se com um barulho desses…

Quer dizer que, naquela época, era normal elas ganharem menos do que os homens, mesmo quando em cargos equivalentes?

Sim. Existe uma política velada no mundo corporativo que acredita que empregar mulheres é ruim para os negócios. Mulheres engravidam, têm TPM, oscilações de humor. Logo, os salários delas devem compensar por esses inconvenientes. Se você é empresário e ainda está lendo até aqui, acredite em mim: nenhuma empresa pode existir sem a força, a criatividade e a intuição feminina. Por esses atributos, elas deveriam ser melhor remuneradas do que os homens. E cá entre nós, homens tem oscilações de humor também. Admita.

Quer dizer que, naquela época, a violência contra a mulher era cotidiana?

Sim. Nos dias de hoje, descontar a frustração masculina na forma de violência contra a mulher é ato corriqueiro. E se você pensa que isso só ocorre nos estratos menos favorecidos da sociedade, você está enganado.

A lista segue, mas é preciso encerrar o texto. Trata-se de um castelo de cartas e, se pudéssemos remover o ás de espadas que segura toda essa ilusão do patriarcado, teríamos uma série de motivos para nos sentirmos menos obsoletos diante dos nossos netos. Por isso, vamos começar já! Trate bem as mulheres do seu convívio. Não estou dizendo para sair distribuindo flores. Só não buzine ao passar de moto, não vire o rosto para olhar a bunda, não seja um neandertal na balada… Não é como se elas estivessem pedindo muito.

Vernon Maraschin