Quem é mais feliz?

A busca da felicidade tem sido um tema recorrente nos dias atuais. Qualidade de vida, bem-estar, conforto, são conceitos que já caíram em descrédito, tamanha a banalização que se fez do seu uso.

Em qualquer meio de mídia vê-se o link do produto com tudo o que há de bom na existência. Vê-se o slogan “compre um apartamento em nosso condomínio e você terá qualidade de vida para sempre”, como se morando lá fôssemos deixar de ter todos os nossos desafios diários afetivos, financeiros, profissionais, filosóficos, urgentes ou crônicos.

E promete-se qualidade de vida em tudo: apartamentos, carros, liquidificadores, geladeiras, celulares (que nos escravizam!), internet, política, polícia, comida, bebida, álcool e outras drogas. Ficou tão corriqueiro que, na minha opinião (com a mão espalmada no peito como faz meu amigo Jojó), usar esses termos chega a queimar o filme da empresa que está tentando vendê-lo.

Pior ainda é a pretens[a opini]ão de comparar felicidade. A minha é melhor do que a sua. Meu trabalho é mais honesto, minha família mais amorosa, sou mais rico…

Como pode alguém, por morar em uma cidade grande, com acesso à internet, celular, carro e todas as mordomias da tecnologia moderna, bem acomodado em seu apertamento, como pode este individuo moderno crer ser mais feliz do que outro que vive no campo, que tem de labutar todos os dias na terra, com calos nas mãos e rachaduras nos pés, cuja pele já carrega as cicatrizes rasgadas pelo tempo e secas pelo sol.

Quem pode afirmar ser mais feliz: um homem que mora no mato ou na metrópole? A dona de casa do interior ou a advogada bem sucedida da capital? Um médico, físico, engenheiro ou professor? Impossível avaliar, pois tão subjetiva é a ponderação sobre os sentimentos da mente humana, que não se pode afirmar haver parâmetro, uma régua ou medida padrão para tamanha comparação.

Cada pessoa é única, e como tal tem de buscar sua própria felicidade, sua fonte da juventude, aquilo que pode nos fazer tão completos e realizados a ponto de se nos deparamos com um sorriso à toa no meio da tarde, um ócio contemplativo na janela do 9o. Andar. Ou espreguiçar-se em uma reunião, dar-se o incrível luxo de ter – ou não ter – mais luxo, mais tempo, mais nada a fazer. Definitivamente, a maior felicidade está nos momentos mais fugazes e nas menores coisas.

Precisamos de muito autoconhecimento para gerenciar o delicado balanço entre trabalho, família, lazer, saúde, cuidado de si e outras egrégoras, e do resultado disso tudo surge a felicidade mais natural e duradoura, quando tudo entra em sintonia.

É quando a harmonia das esferas se faz ouvir na multidão, basta estar atento. Afinal, a felicidade é instantânea e não duradoura, pontual e não linear, tal qual a própria existência.