PARAISO É COMO BRAÇO, TEM UNS QUE NÃO TEM

Como estou há um bom tempo para escrever este texto, acho que vou utilizar aquele padrãozinho jornalístico (que sempre tento evitar), falar do autor, dizer que ele é o máximo, expor suas idéias e concluir com algo meu que acrescente alguma coisa a quem ler. Só que antes vou ter que abrir um parêntese, e se você não está com paciência de lê-lo, pule este parágrafo. Escrever é uma tarefa um tanto ingrata – dá um trabalho do cacete para depois quase ninguém ler. Pior, 99% dos que lêem não sabem diferenciar um bom texto de outro qualquer. Mas enfim, resolvi escrever porque estou triste, sim é um motivo bem egoista (aí está a sua segunda oportunidade de largar meu texto). Uma vez eu vi o Ferrera Gullar dizendo que o artista é um tremendo sacana, porque ele pega toda a sua tristeza e põe para fora em forma de Arte para ver se se livra daquilo logo, aí as pessoas apreciam seu trabalho e pegam o sentimento para si. E não há como negar – a tristeza é a mãe da criatividade artística.

Para você que pulou o parágrafo anterior vamos ao que interessa. Henry Miller, sim ele mesmo, o que chamei de primeiro facebookeiro da história – vou ter que abrir outro parêntese para explicar isso também. Henry Miller mudou-se de Nova York para Paris em 1929. Vivia à margem da sociedade e dependia de amigos até para comer. Tentou escrever alguma coisa por esta época, mas seus personagens não possuiam seiva. Um dia Miller despertou. “Eu sou meu próprio personagem.” Foi então que criou um tipo de literatura inédita misturando realismo e ficção, sempre partindo das suas experiências pessoais. Seu primeiro livro Trópico de Câncer, nasceu em 1934 já como sucesso de público e crítica, mesmo sendo proibido em vários países inclusive no seu. Apesar disto, Henry foi a inspiração para o movimento de contra cultura da geração beat nos Estados Unidos. Esse cara em 1957 escreveu um livro chamado Big-Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch (se naquela época a vendagem dependesse de um bom título ele estava ferrado) e nele trata das suas experiências no que ele considerava o paraíso – Big Sur.

“Claro que todos percebem, a certa altura, ao longo do caminho, que poderiam levar uma vida muito melhor do que aquela que escolheram. O que impede isso, em geral, é o medo dos sacrifícios necessários. (Mesmo abandonar as correntes que os prendem parece um sacrifício.) Mas todo mundo sabe que nada é realizado sem sacrifício.”
“Os homens sacrificam suas vidas para tornar o mundo melhor – seja lá o que entendam por isso – mas, não movem uma palha para alcançar o paraíso. Tampouco lutam para criar um pouquinho de paraíso no inferno onde se encontram.”
“Talvez seja de fato a mais alta sabedoria preferir ser um joão-ninguém num relativo paraíso como este a ser uma celebridade num mundo que perdeu toda a noção dos valores.”
“Há um rapaz, nesta comunidade que parece ter abraçado o tipo de sabedoria a que me refiro. É um homem com uma renda que lhe dá independência, um homem de inteligência aguçada, bem educado, sensível, de excelente caráter e com capacidades não apenas manuais, mas também do cérebro e do coração. Faz tudo sozinho, desde construir casas a fazer plantações, fabricar vinhos e assim por diante. A intervalos, caça, pesca, ou simplesmente parte para o ermo, a fim de comungar com a natureza. Ao homem médio, ele pareceria apenas outro bom cidadão, a não ser pelo fato de que tem um físico melhor do que a maioria, goza de saúde melhor, não tem qualquer vício nem vestígio das neuroses habituais. Sua biblioteca é excelente, e ele está a vontade nela; gosta de boa música e a ouve com frequência. É capaz de se sair bem em qualquer jogo ou esporte, pode competir com os mais implacáveis quando se trata de trabalho duro, e, de modo geral, é o que se poderia chamar de “um bom sujeito”, ou seja, um homem que sabe se misturar com os outros, lidar com o mundo. Mas o que ele também sabe fazer, e faz, e o cidadão médio não pode ou não quer fazer, é gozar a solidão, viver com simplicidade, não cobiçar nada e partilhar o que tem, quando solicitado a isso. Prefiro não citar seu nome, com medo de lhe causar algum dano. Vamos deixá-lo onde está, sr. X, mestre da vida anôninma e um exemplo maravilhoso para seus companheiros seres humanos.”

Acho que não preciso (e nem conseguiria) concluir depois dessa bela epifânia e de quebra fujo do padrãozinho jornalístico.
Obrigado Henry Miller!!!

POR DANI DENARDI