ONDE SE PASSA A HISTÓRIA?

“Antes de inicar o relato das minhas vidas, preciso contextualizar onde se passa a história. Vivo em um subcontinente que não considero seja um simples país e sim um conglomerado de “nações” federadas sob uma única nacionalidade. Somos vinte e sete estados (um deles denomina Distrito Federal), cada qual com a sua diferente etnia, religião, culinária e vertente linguística. Nas distintas combinações destas quatro variáveis, em proporções diversas, teceu-se uma vastíssima rede de culturas denominada Brasil.

Como o país, no passado, promoveu um imagem equivocada de si mesmo, preciso esclarecer que nossa terra e nossa gente talvez sejam muito diferentes da percepção que o leitor acalenta, mesmo que seja meu compatriota!

Estes esclarecimentos também servirão para forrar a cultura de alguns povos que sistematicamente nos perguntam sobre cobras e macacos atravessando a Avenida Paulista. Ou que interpelam aquela paranaense, catarinense ou gaúcha, dizendo-lhe: “Você não tem cara de brasileira. Você é loira de olhos azuis!’ Assim, para incrementar a cultura geral de muita gente pelo mundo afora, aqui vão algumas informações que provavelmente irão surpreender.

Somo a sexta economia do mundo (a quinta, segundo a revista The Economist, de novembro de 2009). Quando Estados Unidos e Europa enfrentavam a crise de 2008, o Brasil ofereceu nada menos que alguns bilhões de dólares ao FMI. Nossa população corresponde a um terço de toda a população da América Maior, a qual conta com 33 países.

O nosso país sozinho (8.514.876 km²) é maior que toda a Europa Ocidental.

Não se pode estereotipar o nosso povo, já que cada “nação” foi edificada a partir de imigrações muito diferentes. Não podemos, por exemplo, declarar que o povo aqui é branco, ou negro, ou oriental, ou aborígene. Cada estado tem preponderância de alguma dessas etnias ou de uma miscigenação particular. Também não podemos declarar que a população seja católica, ou protestante, ou judia, ou muçulmana, ou shintoísta, ou budista, ou espírita, ou que siga cultos afro. Cada cidade tem sua predominância. Para mencionar apenas alguns desses vinte e sete estados, podemos citar:

O estado do Rio Grande do Sul (281.748 km²) tem território maior que a Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte juntos (U.K. – 244.829 km²). A imigração foi principalmente alemã e italiana. Em algumas cidades, ainda é possível escutar os dialetos alemães ( Hunsruckisch, Plattdeutch) e italianos.

O estado de Santa Catarina (95.346 km²) é maior que a Hungria (93.030 km²). Nele, recebemos principalmente a imigração alemã e até hoje há cidades onde só se fala alemão, com exceção da capital, na qual a imigração foi açoriana. Também tivemos a presença italiana no sul do estado.

O estado do Paraná (199.709 km²) tem território maior que a Grécia (133.990 km²). A imigrção foi principalmente alemã, holandesa, italiana, polonesa, ucraniana, japonesa e árabe.

O estado de São Paulo (248.880 km²) tem território em que cabem mais de oito Bélgicas (30.528 km²). A imigração majoritária foi italiana. Depois, a japonesa. Em seguida, a “árabe” (libaneses, sírios e turcos). Tem uma população israelita bastante expressiva e que se dá muito bem com o segmento islâmico. Convivem lado a lado, fazem negócios entre si e ocorrem até casamentos entre suas famílias!

O estado do Rio de Janiero (43.909 km²) é maior que a Suiça (39.770 km²). A imigração foi majoritariamente portuguesa, contudo, na serra instalaram-se finlandeses, suecos, suíços e alemães.

O estado da Bahia (567.692 km²) sozinho englobaria facilmente a Inglaterra, Escócia, Irlanda, Grécia, Hungria, Bélgica, Suíça e Portugal. Tem uma presença preponderante da cultura africana na religião, na culinária, na língua e na etnia.

Os estados do Norte são alguns dos maiores. São fascinantes, um outro mundo. Essas regiões apresentam uma influência maior das culturas indígenas.

No Nordeste tivemos holandesas que deixaram muitos genes recessivos de olhinhos azuis que reaparecem aqui e ali; e também invasões francesas que resultaram no nome da capital São Luis, em homenagem ao Rei Luís IX, patrono da França e ao rei francês da época (1612), Luís XIII.

No Sul e Sudeste as temperaturas no inverno podem chegar a alguns graus celsius abaixo de zero e em algumas cidades, como São Joaquim (SC), costuma nevar.

A região Centro-Oeste abriga nossa capital federal e Goiânia, duas cidades que foram projetadas com um planejamento estratégico.

Segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, dez por cento dos brasileiros tem ao meno um antepassado alemão e 25 milhões são descendentes de italianos, sendo que metade desse número vive no estado de São Paulo. No entanto, como um todo, fomos colonizados pelos portugueses os quais nos concederam sua nobre língua que é a melhor língua literária do mundo. Oficialmente, falamos português. Coloquialmente, falamos brasileirês que possui uma sintaxe diferente da língua mater e um vocabulário bem diverso, com inumeráveis vocábulos agregados dos povos que para cá emigraram, mais os termos indígenas e africanos, o que tornou o brasileirês a língua de vocabulário mais vasto em uso hoje no mundo e de mais largo espectro fonético. No entanto, regionalmente, surgiram os dialetos simplificados do brasileirês, tais como o gauchês, o carioquês, o mineirês, o paulistês, o paulistanês etc. Fora esses dialetos do português, falam-se nesta terra nada menos que 180 línguas (isso mesmo: cento e oitenta)!

As pronúncias do português (brasileirês) sã tão diversas que, normalmente, um habitante do Sul ou do Sudeste não compreende o falar do Nordeste. Temos, por exemplo, três tipos de r: o r francês, produzido na garganta; o italiano, linguodental; e o r inglês (como em wright), articulado principalmente no interior de São Paulo e de Minas Gerais.

Com uma vastidão territorial como a que foi descrita, bem como com tantas línguas e dialetos, é impressionante que tenhamos preservado uma unidade federativa e uma identidade nacional.

Para completar esta contextualização, que aparência têm as nossas cidades? Bem, cada cidade tem sua personalidade própria, mas podemos afirmar que Sâo Paulo é uma das mais sofsticadas, confortáveis e seguras do mundo (seguras, sim, pois em 69 anos de vida fui assaltado uma única vez).

Se precisássemos comparar São Paulo com alguma cidade, essa seria New York. São Paulo lembra um pouco Manhattan, só que é melhor. A gastronomia é deliciosamente variada e refinada. Aqui encontrei a mais apurada qualidade de vida. Tanto que, depois de viajar o mundo todo, elegi esta capital para morar e como central internacional do nosso trabalho. Só o fato de que ninguém para tudo e fecha para o almoço, como fazem em tantos países, já constitui um grande conforto. Além disso, a qualquer hora da madrugada encontramos bons restaurantes, livrarias e supermercados onde podemos fazer compras às duas, três ou quatro da manhã. Muitas empresas funcionam 24 horas por dia.

A qualidade dos produtos e serviços, bem como a cortesia dos profissionais e dos empregados paulistas é proverbial. A Polícia Militar é formada por pessoas educadas e de boa índole. O atendimento hospitalar é superior ao da maior parte dos países europeus. Ah! E os nossos chuveiros! É uma delícia retornar da Europa e poder tomar uma ducha decente, com chuveiro fixo na parede e muuuita água, sem o risco de que a água vá se acabar no meio do banho.

Então, pergunto eu, será que há crocodilos no Sena ou no Tâmisa?”

*Capítulo do livro Quando é preciso ser forte
DeRose