O SILÊNCIO DO AMOR E DA LIBERDADE

Yoko Ono foi uma personalidade muito mal interpretada na vida pública. Isso se deve em grande parte à incapacidade que o ser humano possui de ver os fatos sob uma ótica mais abrangente. Acabamos acreditando sempre no que mais se encaixa com nossos paradigmas. Poucas pessoas possuem uma ampla visão dos acontecimentos a ponto de ter um discernimento mais aguçado dos fatos. A maioria assume imediatamente uma posição que se encaixe mais às suas conveniências.

Ela certamente possui uma força interior incrível e uma inteligência deslumbrante. Vemos por exemplo sua influência para o crescimento intelectual na obra de Jonh Lenon pós-Beatles. No entanto, ela tinha muitos fatores atuando contra na época em que seu marido, era a pessoa mais popular do mundo. Por odia-la, a mídia nunca lhe deu espaço para expor seu ponto de vista.

Vamos tentar olhar os fatos sob uma ótica diferente daquela que nos foi passada pelos meios de comunicação, afinal:

1. Ela não possui uma beleza estereotipada. Pelo menos não é a formosura que esperamos ver ao lado de uma pessoa famosa. Isso incomodava a quase todos que estão acostumados a ver ao lado de personalidades pessoas como Victoria Beckhan, que se orgulha de nunca ter lido um livro e que pouco acrescentam à nossa cultura. Irritava ver uma alguém aparentemente feia encantando o tão querido astro. Isso não se encaixa nos nossos padrões.

2. Yoko não sorria, é misteriosa e oriental. Isso gerava nas pessoas que a observavam uma certa insegurança por não saber nunca o que lhe agradava. Mais uma vez, atitudes e padrões que não se enquadram com os da sociedade ocidental. Para nós, as pessoas devem ser sorridentes e simpáticas mesmo que isso seja extremamente falso e maquiado. Preferimos acreditar no que queremos do que encarar a realidade.

3. Ela assumiu o controle dos negócios dele, demitindo vários advogados e empresários que ganhavam fortunas às custas da celebridade. Isso era e de certa forma ainda é muito mal visto. Nossa sociedade patriarcal não deseja que mulheres ganhem espaço, ainda mais nos negócios que sempre foram dirigidos por homens.

4. Jonh Lenon considerava Yoko Ono sua mestra, ele dizia que ela havia o ensinado tudo o que sabia. Isto contradiz totalmente a cultura das celebridades que se iniciava naquela época e que tomou proporções endêmicas nos dias de hoje. Essa cultura dá aos astros uma inteligência infinita. Eles são capazes de nos dizer tudo o que é melhor. “Sabem” qual é o melhor perfume, o melhor carro, o melhor regime, enfim aparecer na mídia lhe dá hoje um status de gênio. Qualquer coisa que você queira propagar será seguida por milhares de pessoas. Como podia uma japonesa ensinar algo ao ídolo máximo do momento? Jonh não tinha nada o que aprender com ela. Para a opinião pública, no nível de personalidade em que ele se encontrava, não havia mais nada o que aprender com ninguém.

5. Por fim o pior de todos os bodes expiatórios: Yoko gerou em Lenon a coragem necessária para que ele fizesse algo que desejava há muito tempo, sair dos Beatles. Isso foi o máximo que a sociedade poderia suportar. Jonh só podia estar hipnotizado. Ele não pensava mais com sua própria cabeça, havia alguém pensando por ele. Mas como ele mesmo afirmou em sua última entrevista “sair é muito mais difícil que continuar”. Foi necessária uma coragem desumana para ele agir dessa forma e deixar que sua própria vontade prevalecesse ao desejo mundial. Somente com um apoio muito forte ao nosso lado conseguimos tomar decisões dessa magnitude.

Jonh Lenon era o filósofo do grupo, ele sempre conseguiu: “enxergar por baixo da superfície das coisas” conforme ele dizia. Era um contestador da sociedade como ela era composta. Chegou um momento que Lennon amadureceu, estava saturado de fazer “yeah yeah yeah” com as mesmas pessoas que dividia quartos de hotel desde que tinha 17 anos. Ele desejava fazer algo maior, mais perene e impactante.

Embora os homens hesitem em admitir, são as mulheres que nos possibilitam evolução. Devemos a elas boa parte de nossa força e de nosso progresso. Devemos a elas a maravilha do mundo em que habitamos, pois elas estão sempre lá para nos mostrar as coisas lindas da vida.
Provavelmente foi isso que Yoko fez a Jonh e que nossas parceiras nos fazem todos os dias. Ela lhe mostrou que mudar é imaginável, que seguir sua consciência para ter uma vida mais plena é possível. Que se você se acha um sonhador talvez não seja o único.

Mesmo estando aparentemente realizados profissionalmente, podemos construir um planeta melhor.

Jonh e Yoko nos mostraram uma relação de amor sincero que jamais presenciamos na história. Eles difundiam um sentimento puro que tinha a proposta de tomar o mundo. Eles propagaram o amor acima de tudo, a paz e a liberdade. Talvez a sociedade ainda não esteja pronta para uma ideologia tão bela. Eles tentaram, mas não foram muito bem aceitos.

Devemos à influência de Yoko uma das mais belas músicas já compostas, Imagine. Imagine que essa canção ainda inspira corações e mentes que buscam mais liberdade. A cada dia, nos aproximamos mais de um mundo sem fronteiras como ele sonhou, mas parece que nossa capacidade limitada de ver os fatos e adequar nosso julgamento aquilo que nos convêm ainda se aproxima muito ao tempo de Elizabeth I em que Liverpool era a principal porta para o mundo.

A morte do ídolo, como todas as coisas desagradáveis que acontecem pela vida trouxe algo de bom. Sua mensagem ficou mais marcada e tomou proporções que ele jamais idealizaria. Quem sabe se ele estivesse vivo e tivesse seguido o que todos queriam, que era retornar aos Beatles, poderia ter feito sucesso, mas com certeza não teria deixado algo tão valioso para nós que é a valorização da mulher e a coragem para fazermos aquilo que nossa percepção, e não os outros diz que é mais certo. Somente assim ficamos de consciências tranqüila e realmente felizes.

 

POR DANI DENARDI