MAIS UM RELATO DE OVO FRITO. A (DOR) CRÔNICA DO MEU OVO

    Introdução prévia:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/139414-o-ovo.shtml

Depois de me deparar com essa criação divertidíssima do Gregório Duvivier na Folha, onde ele faz uma comparação entre como cada autor (Clarice, Guimarães Rosa, Saramago e outros) contaria como seu personagem fritaria um ovo, eu fiquei com vontade de descobrir como seria o meu relato. Para descobrir, comecei a escrever. Eis que surge um relato um tanto longo, em comparação com os que ele apresentou. Mas calma, aos afoitos, imersos no mundo da pressa, da falta de tempo, da ansiedade, das poucas palavras, da comunicação e leitura rápida, da preguiça, da dispersão… presenteio-o, primeiramente, com um resumo da crônica num único parágrafo (eu me incluo nesse mundo, daí o motivo do resumo prévio a seguir). Aos demais, a versão completa, em seguida.

Versão II:

“Venci a vontade de me manter dormindo e acordei. Depois de uns tantos minutos, saí da cama pra esquentar a água do chá. Pensei sobre os sonhos e o que são eles. Na cozinha, me entreguei à hipocrisia, ao comodismo, ao egoísmo, ao fracasso… Fiz um ovo. E comi, com pão e azeite. Mas ainda que com certo pesar pela minha fraqueza, logo agradeci à vida pela existência do ovo que matara minha fome. Agradeci à galinha e pedi perdão. Senti a dor, senti o amor. E comecei meu dia subindo as escadas na companhia do chá.”

Versão I:

“Como de costume, acordei em meio ao conflito entre o desejo do sono profundo e a ânsia pela criação. Já nos primeiros segundos do dia, a mente impondo sua presença de fala constante e plural. Venci a batalha da dúvida e num movimento impulsivo me sentei sobre os pés, apoiando meu peito sobre as coxas e a cabeça solta no colchão, com os braços estendidos e descansados à frente. Em outras palavras, em hamsásana. Os olhos ainda cerrados, pois é de olhos fechados que verdadeiramente se desperta para a vida. Mantive-me assim por algum tempo, observando os pensamentos e ordenando-os em qualidade e quantidade. Quanto menos melhor, o ideal seria nenhum, mas segui com alguns poucos que contribuíssem para meu crescimento pessoal. Aos poucos, depois de algumas técnicas de aumento de energia e conexão interior, desci as escadas tentando me lembrar dos meus sonhos. Pouco lembrei e segui com os passos enquanto refletia:

“O que quer dizer esse sonho? Por que não me lembro de tudo o que sonhei? O que é sonhar? Preciso ler A Interpretação dos Sonhos. Onde estive enquanto dormia? Tenho uma alma que se desloca durante a noite? Ou meu subconsciente está apenas me mostrando desejos, traumas, memórias e expectativas? O que ele é? Alguns neurocientistas nem consideram a existência de um subconsciente, que bizarro! Ai, desencana, ainda pastaremos um bocado pra explicar muitas coisas e sei que para certas delas, pela razão não se chegará a um bom resultado. Sim, eu já sei, o mais importante é a experiência…”

Nesse momento, a mente já estava a todo gás. Cheguei na cozinha e coloquei a água para ferver, lembrando-me mais uma vez de quando minha amiga, especialista em medicina tradicional chinesa, me mandou um e-mail com a informação de que deve-se tomar um copo de água morna todos os dias pela manhã, em jejum, alguns minutos antes de comer qualquer coisa.

“E não é que meu corpo agradece mesmo? Sinto que faz bem aquela água descendo quentiiiinha… Minhas células sorriem. Não sei como eu conseguia tomar coisa fria quando era mais nova, eu adorava uma coisa gelada! Como a gente muda! O Bart ainda toma frio, mas vou dizer alguma coisa sobre isso pra ele? Que nada! Ele não vai mesmo entender, se é que vai ouvir alguma coisa… Agora eu compreendo melhor a minha mãe, ela falava coisas que não faziam sentido e hoje fazem. E olha que ainda nem estou velha! Alguns ainda me acham uma adolescente… Eu também me acho, mas entender a mãe deve ser algum sinal de amadurecimento. Por outro lado, sempre tive em mim alguma maturidade que poucos têm. Se bem que alguns a chamariam de chatice mesmo. O Pondé seria um que odiaria meu PC (politicamente correto) e pretensão ao bem. Paciência. Agradar a todos? Pra quê?”

Olho para a mesa e as frutas acabaram. Abro a geladeira e muitos ovos me vêem.

“Tsc. Ovo? Mas e as galinhas e pintinhos que foram maltratados? Caramba, isso que dá não ir ao mercado! Não, eu não estou reclamando! Sou grata pelos ovos, ainda bem que tenho ovos! Vou comer um vai… Me perdoem, galinhas, mas agora sua produção já está aqui! Falha minha, mas também não sei se devo carregar os problemas éticos de todo o mundo nas costas. Já não como carnes! Tá, eu sei que isso não é argumento, é hipocrisia. Uma hora essa humanidade toma jeito e pega os ovos sem maltratar os bichinhos. Outra hora eu tomo jeito e compro sempre frutas, até por quê, além de gostosas, também são melhores para a saúde.”

Torcendo para que tenha vindo de uma granja humanitária, que respeite mais a vida, rendo-me ao comodismo, à hipocrisia e ao egoísmo, pego um ovo e jogo na frigideira nova e perfeita que nunca gruda.

“Assim dá até mais gosto de comer, ele fica tão bonito!”

Enquanto espero a água terminar de ferver para fazer um chá, estímulo o melhor funcionamento de minhas glândulas, órgãos e sistema nervoso, fazendo uma técnica yôgi de massagem interna por meio do movimento circular, voluntário e consciente do grande reto abdominal. Sinto-me revitalizada, pronta para iniciar o dia. O ovo está pronto, a água também. Como o ovo com pão e azeite. Delicio-me. Subo as escadas tomando o chá e iniciando mais um dia.

Meu nome? Lisa Simpson. Supostamente adulta e yôginí.

Viviane Betterncourt