Agridoce

Algumas tristezas destacam-se das demais. Apesar de esperarmos que ajam como todas as demais, elas sempre nos sussurram que não se vão, que se infiltrarão nas brechas, se esconderão em algum aroma, em locais e frases.

Estas passam a ser parte de nós, são aquelas que mesmo conscientemente esquecidas influenciam nossas escolhas, gostos e futuros.
Torcemos e fingimos que se vão mas sabemos que elas vão ficar ali, envelhecer connosco, marcar nossa pele e principalmente moldar nossas relações vindouras. Estarão sempre a arrastar os móveis.
Até tentam se disfarçar e não fazer muito barulho, mas sempre topamos com elas no corredor, no meio de um livro, em músicas. Como uma mala de lembranças, carregadas com momentos, com marcas, com brilhos. Daquelas que num tropeço, num baixar de guarda abrem-se e espalham tudo.
São aquelas que apesar de tristezas recusamo-nos a largar porque são aquilo que nos restou de momentos perfeitos, de vivências doces, de experiências que nos enriqueceram de tal forma que fazem valer a pena cada tonelada de seu peso.
São, portanto, felicidades escondidas, belezas que magoam, mas ao mesmo tempo fazem sorrir.
São um lembrete que existem forças maiores que as nossas e um exercício de adaptação e respeito.
Um aprendizado de conviver com os opostos, um aprender a valorizar os momentos de plenitude que geraram essas memórias.
E um firmar de um pacto. De que na próxima vez seremos melhores, mais dedicados e não nos deixaremos vencer assim.
É um sorriso que aparece sem aviso, um aperto na garganta, um respiração mais lenta que nos lembra que vivemos, que passamos por algo, que somos.
Não largamos essas tristezas porque seria abrir mão do lindo que somos, das experiências que tivemos, seria fingir que não lutamos, que não vivemos, que não sabemos o que sabemos.
Não as largamos porque seria largar um pedaço de nós, seria abandonar o brilho dos nossos olhos, a força das nossas vontades, a inspiração das nossas artes.
E tu? Quais tuas belas tristezas?