A GLORIA

Comecei a revirar meus livros para preparar um curso de meditação. Fui atrás do meu escritor favorito nesta área, Mircea Eliade, me encanta sua profundidade, sua intelectualidade e sua história – Eliade, para quem não sabe e está com preguiça de procurar na Wikipédia foi um intelectual romeno especializado em história das religiões, filosofia e Yôga. Sim, ele foi um exímio praticante e um ardente admirador da prática milenar indiana. Aos vinte e poucos anos ele já era aficionado pela cultura indiana e queria conhecê-la in loco, então escreveu para um maharája indiano pedindo um mecenato para estudar sânscrito e hinduísmo o maháraja aceitou e Eliade passou alguns anos estudando por lá. Nesta experiência que conheceu o Yôga. Mas desta vez, foi sua carreira como romancista que me chamou a atenção. Eu pesquisava um livro de entrevistas – A provação do labirinto – que é quase uma biografia e ali Claude-Henri Rocquet o pergunta:

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– Por onde havemos de começar? Pela glória?
– Sim, pela glória, pois me ensinou muito. Apresentei Maitreyi (Noites de Bengali) a um concurso de romances inéditos. Obtive o primeiro prêmio. Tratava-se, simultaneamente, de um romance de amor e de um romance exótico. O livro teve um enorme sucesso, inesperado, que surpreendeu o editor e a mim mesmo. Teve numerosas reedições. E, aos vinte e seis anos, tornei-me, célebre: os jornais falavam de mim, reconheciam-me na rua, etc. É uma experiência que foi muito importante, pois conheci muito jovem o que quer dizer ser glorioso, ser admirado… É agradável, mas não é nada de extraordinário. Então, para o resto da minha vida, deixei de ser tentado por isso. Ora, isso trata-se de uma tentação que penso ser natural a todos os artistas, a todos os escritores: cada autor espera ter um grande sucesso, ser reconhecido e admirado pela massa dos leitores… Eu tive isso bastante jovem, esse sucesso, fiquei bastante feliz, e isso ajudou-me a escrever romances que não eram feitos para o sucesso.

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Essa citação de Mircea Eliade não nos ensina apenas sobre o sucesso nas artes ou na literatura, mas sobre qualquer tipo de sucesso, e ele é tentador mesmo. E se o profissional não tiver uma cabeça boa como teve Eliade e se viciar no sucesso, seu destino a gente sabe qual é.

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Mas voltando à literatura, tenho que citar mais uma vez a frase do Pondé que pus no texto anterior, mas que cabe como uma luva aqui “o caráter de alguém que escreve é medido pela ausência de desejo de agradar a quem lê.” E digo mais, a preocupação com agradar o público praticamente impede a perpetuação da obra. E pode haver maior glória que essa? A perpetuação de um legado, buscado desde a o tempo que os faraós erguiam pirâmides e que talvez seja o mais nobre objetivo humano. Será que Marcel Proust se tornaria eterno se pensasse no sucesso de Em busca do tempo perdido? E seu contemporâneo James Joyce com Ulisses? A história está cheia desses exemplos e há todos os dias milhares de pessoas caindo na armadilha do sucesso sem levar em conta a sabedoria do tempo.

POR DANI DENARDI